'Chorão: Marginal alado' faz retrato íntimo que expõe virtudes, mas deixa problemas no ar

  • 08/04/2021


Documentário que estreia nesta quinta (8) tem reveladora pesquisa de imagens e entrevistas com família e amigos que ajudam a entender carisma, mas não explicam bem lado agressivo. 'Chorão: Marginal alado': veja o trailer O documentário "Chorão: Marginal Alado" mostra os lados carismático e problemático do cantor de "Vícios e virtudes". Com ótima pesquisa de imagens, o carisma do artista morto em 2013 salta e ainda faz manobras de skate na tela. O filme sobre o líder do Charlie Brown Jr. estreia nesta quinta-feira (8) nos cinemas e em streaming pago nas plataformas Now, Google Play, Apple TV, Vivo Play, Looke e Youtube. O diretor Felipe Novaes usa um sensacional e farto acervo de imagens dos bastidores do cantor, cedido pela família. O acesso não foi por sorte, mas é resultado de anos de pesquisa, que inclui uma histórica entrevista com o baixista Champignon dias antes de sua morte, também em 2013. Há cenas surpreendentes de Chorão, como uma conversa carinhosa com uma fã pela janela da van de turnê; conversas reveladoras, como o relato de uma ida ao hospital por problema com drogas antes da overdose; e falas incômodas, como a bronca em um produtor de show em um camarim. O vício em cocaína também é tratado de forma franca e angustiante pelas pessoas que conviveram com ele nos dias próximos à overdose que o matou. Pé atrás com os problemas Mas, ao tentar explorar a série de problemas que o cantor teve com outros músicos, especialmente da própria banda, o filme esbarra no pé atrás de familiares e amigos, que repetem "personalidade forte", "lado exigente", "personalidade sensível" e outros eufemismos ao comentar cenas agressivas. O filme não esconde cenas como a humilhação pública a que ele submeteu o baixista Champignon no meio de um show e a famosa cabeçada em Marcelo Camelo, dos Los Hermanos. Chorão em imagem do documentário 'Marginal alado' Divulgação Mas os comentários sempre voltam no ponto de que aquela seria uma "carapaça" bruta que esconde um "lado sensível", como diz a viúva, Graziela. O produtor Rick Bonadio chega a exaltar os episódios de agressão como "dignos de um rockstar", e ao falar do caso com Camelo, diz que "roqueiro é assim". Um dos principais entrevistados do filme é literalmente advogado de Chorão: Maurício Cury, amigo de infância do cantor, que o defendeu na Justiça inclusive nas causas contra Camelo e Champignon. O documentário percorre bem um caminho livre para entender bem a determinação e o papo direto que fizeram de Chorão o último grande ídolo do rock brasileiro. Mas a bancada amigável que ajuda no retrato íntimo também dificulta colocar em foco a compreensão dos confrontos que Chorão criou. Por que separou? Fica obscuro um episódio crucial: quando Chorão trocou toda a formação da banda em 2005. Não há uma explicação clara além do sinal da dificuldade de dividir os holofotes quando o público canta "Champignon! Champignon!" e Chorão tenta mudar o coro para "Charlie Brown, Charlie Brown!". Há uma ótima entrevista com Champignon dias antes de ele morrer, mas o baixista se recusa a falar sobre a cena de humilhação no palco: "Tem várias coisas que ninguém sabe e provavelmente não vai saber e não vai conhecer, porque é nosso". Não dá para culpar o diretor - era um limite impossível. Documentário 'Chorão: Marginal Alado' mostra relação com fãs, solidariedade e intimidade Mais cedo, Champignon conta que entrou na banda aos 12 anos, como protegido do adulto e ídolo Chorão. Parece haver ali um filme escondido - que provavelmente nunca será conhecido - sobre a relação de sucesso e violência entre dois artistas que morreram no mesmo ano. No campo puramente musical, um programador de rádio diz que "ninguém cantava daquela maneira". Mas o Charlie Brown foi uma manifestação tardia do skate rock e do funk metal já batidos na época. Era o oposto: muita gente cantava daquela maneira. O fenômeno merece uma análise mais profunda. "Chorão: Marginal alado" é um documento rico sobre uma figura fascinante e cuja importância parece se manter e até aumentar oito anos após sua morte. Mostra de forma clara e íntima a sua ascensão com uma linguagem direta e dá boas pistas sobre quais eram os seus erros e limites. O trem do Charlie Brown descarrilhou justo quando o rock perdeu muito da relevância que tinha por décadas no país. É importante entender as virtudes de Chorão. Mas mergulhar em suas falhas (além do "personalidade forte" e do "roqueiro é assim mesmo") pode reforçar não só sua biografia, mas a história do rock brasileiro. Semana Pop: Chorão completaria 50 anos em 2020; relembre momentos desde a morte do cantor

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2021/04/08/chorao-marginal-alado-faz-retrato-intimo-que-expoe-virtudes-mas-deixa-problemas-no-ar.ghtml

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